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Crônica dos Campos Gerais: Caderno de receitas

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24 de novembro de 2021 09:00

Da Redação


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Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, Professora aposentada, Ponta Grossa, escrito no âmbito do projeto Crônica dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais Foto: Reprodução
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Crônica dos Campos Gerais: Caderno de receitas

Quase totalmente azul, não fossem os pés e os puxadores das gavetas serem pretos, aquele armário de cozinha permaneceu estático e útil, no mesmo canto, por muitos anos. Móvel simples, composto por duas portas e duas gavetas. A tela de arame na metade superior das portas ventilava seu interior. Não havia geladeira e o armário, resignado, executava as duas funções: acomodar as louças e proteger os alimentos embora sem refrigeração.

Numa das gavetas os talheres. Na outra a toalha de mesa e o caderno de receitas. Com sua capa xadrez, folhas amareladas, esparsas manchas de gordura e alguns pingos de massa, provavelmente de cuca de banana, ele sobrevivia. Receitas registradas com letra caligráfica, a data e a identificação de quem a compartilhou, geralmente um parente, uma comadre ou vizinha. Sequilhos, pudim de mandioca, bolo de fubá, cabrito assado com batatas, costela na cerveja, empadão... O caderninho deitava sobre o trigo espalhado na mesa de madeira, que hoje seria chamada de “ilha”, dividindo espaço com o açúcar, fubá, ovos, fermento, margarina e logo um cheirinho bom tomava conta da casa quando a forma deixava o forno do fogão Econômico.

Assar alcatra e linguiça aos domingos era um costume que perdura. Era imperioso que a linguiça fosse do Açougue do Adi, a mais famosa da cidade, acompanhada de várias saladas. Ainda se podia consumir palmito in natura que os caminhoneiros traziam do litoral para a capital e cidades do interior. Após uma fumaceira num barril metálico no quintal, usado como churrasqueira, a carne era servida e o domingo se iluminava.

Alcatra é um corte nobre, carne macia e suculenta. Junto ao osso, um naco do filé mignon ainda mais macio. Entrelaçada num espeto tridente, a carne esticada era levada a assar no calor da brasa incandescente. Ao ser servida no próprio espeto, em pé sobre a mesa, formava uma cortina densa que se interpunha entre as pessoas dos dois lados da mesa, mas que logo se tornava transparente e esfarrapada. Ninguém ouvira falar em Pavlov e nem sabia o que era reflexo condicionado. A “baba” era aceita naturalmente.

Ponta Grossa não possuía um prato típico para chamar de seu. Foi assim que numa decisão coletiva e oficial, elegeu-se o “Alcatra no espeto” como o prato típico ponta-grossense. O tempero dessa perdição gastronômica estava anotado naquele caderninho de receitas.

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