Subutilização e alto custo inviabilizam gestão do Centro de Eventos
Tema foi discutido já na primeira sessão legislativa de 2026; proposta não é inédita, mas volta à pauta com possibilidade de conceder administração do espaço com prazo de 20 anos, com a possibilidade de prorrogação

O Centro de Eventos “Cidade de Ponta Grossa” pode passar por um processo de privatização. Ao solicitar a primeira sessão extraordinária de 2026, a Prefeitura Municipal de Ponta Grossa (PMPG) encaminhou à Câmara Municipal o Projeto de Lei 007/2026, que autoriza a concessão de uso onerosa do complexo à iniciativa privada, e assim que a proposta entrou em pauta, os vereadores levantaram questionamentos sobre prazos, contrapartidas e preservação do caráter público do espaço.
À Redação do Grupo aRede, a prefeita municipal de Ponta Grossa, Elizabeth Schmidt (União Brasil), esclareceu algumas dúvidas sobre o projeto. Em justificativa, ela afirma que a concessão permitirá a ampliação de atrativos e a efetiva utilização do imóvel, que hoje mantém-se fechado durante longos períodos, mas excede em custos de manutenção. “Por anos, o Centro de Eventos vem sendo submetido a reformas paliativas que consomem milhões de reais”, explicou. Segundo Elizabeth, a proposta reorganiza o modelo de gestão para deixar de comprometer recursos públicos, gerar retornos à sociedade e servir ao interesse público com a garantia da realização de eventos no local.
A discussão não é exatamente nova. Ainda em 2017, a antiga Fundação Municipal de Turismo de Ponta Grossa (Funtur) estudava sugestões de privatização do espaço. Entre os argumentos da época, estava o custo de R$ 450 mil em consumo de água e luz por ano. Neste planejamento primário, a proposta de concessão seria de uma década. Entretanto, o projeto não se estendeu.
Já em 2019, um projeto que previa a transformação do local para outras finalidades, o Projeto de Lei 281/2019, de autoria do ex-prefeito e atual deputado Marcelo Rangel (PSD) propôs a instalação do Polo Tecnológico de Ponta Grossa no imóvel, mas foi vetado pelo Legislativo. Em 2023, o mesmo projeto voltou a ser pauta de discussão na Câmara, mas foi arquivado na sequência. Essas fases anteriores do debate revelam que o potencial do Centro de Eventos está constantemente sendo avaliado pelos representantes municipais, e em 2026, este assunto é retomado com o novo projeto.
INFRAESTRUTURA
A estrutura física do Centro de Eventos reforça o peso da discussão. Com área total de 227.964 m², o complexo reúne pavilhões, palcos e camarins, um espaço interno com capacidade para cerca de 5.000 pessoas e uma área externa que pode receber até 40.000 pessoas, além de duas praças de alimentação (1.250 m² cada), restaurante, espaços para atendimentos de saúde, escritórios e estacionamentos. Estas características tornam o espaço apto a feiras, exposições setoriais e shows de grande porte, a exemplo dos tradicionais eventos realizados pelo Município: Münchenfest, a Festa Nacional do Chope Escuro; Exposição Feira Agropecuária e Industrial (Efapi); Festa da Uva (Fesuva); Fé Ponta Grossa; Festival de Balonismo; e até mesmo eventos universitários promovidos pela comunidade acadêmica da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

A prefeita Elizabeth Schmidt (União Brasil), autora do PL 007/2026, afirma no texto que a concessão não configura venda do patrimônio, mas sim a transferência da gestão por prazo determinado de 20 anos, com a garantia da incorporação de melhorias ao patrimônio público ao final do contrato, que pode ser prorrogado. Pelo modelo previsto, o concessionário assumiria despesas operacionais e executaria investimentos previstos no edital, enquanto o Município manteria a função de fiscalizar o contrato. À Redação, a prefeita justifica que, nos moldes atuais, o Centro de Eventos representa um elevado custo de manutenção, baixa eficiência operacional e subutilização crônica para o Município.
Em entrevista à equipe de Jornalismo do Grupo aRede, o secretário municipal de Turismo, Paulo Stachowiak, declarou apoio à proposta como caminho para garantir melhorias estruturais e ampliar a captação de eventos, ressaltando o potencial do equipamento para movimentar a economia local. Projeções da Secretaria indicam que o calendário de eventos previsto para 2026 pode movimentar mais de R$ 10 milhões na economia de Ponta Grossa, e Paulo garante que os grandes eventos realizados no local em pauta estão resguardados pelo projeto de lei, além de compartilhar que já está tratando a organização da Münchenfest, prevista para o fim do 2º semestre.
Por outro lado, a Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Ponta Grossa (Acipg), órgão da sociedade civil organizada que representa o setor produtivo no município, demonstra cautela com a proposição. “Somos favoráveis a tudo aquilo que represente um avanço para o desenvolvimento da cidade”, diz Giorgia Bin Bochenek, presidente da associação. “No entanto, entendemos que medidas dessa natureza precisam ser amplamente debatidas com a sociedade”, diz. A gestora da instituição considera fundamental o esclarecimento de dúvidas e promoção de ajustes solicitados pela comunidade, que devem ser considerados para construir a melhor solução.
LEGISLATIVO EXIGE ATENÇÃO
Na Câmara, o debate tem sido acompanhado com atenção. O relator da Comissão de Obras e Serviços Públicos, vereador Professor Careca (PV), já se posicionou favoravelmente ao projeto, afirmando em seu parecer que reconhece a oportunidade, relevância e conveniência para a aprovação do projeto. Por outro lado, o vereador Ricardo Zampieri (PL), indicado presidente da Comissão de Agricultura, Indústria e Comércio, disse à reportagem que possui questionamentos referentes ao volume de recursos que o possível contratante poderá investir no Centro de Eventos, além de reforçar o caráter público do espaço. “O local é voltado à população, e a nossa função, enquanto vereadores, é representá-la”, diz.
O presidente do Legislativo, vereador Julio Küller (MDB) destacou que o projeto integra uma pauta decisiva para a gestão municipal, e é papel do Legislativo garantir que o debate seja técnico e transparente. Para ele, este e outros projetos que foram debatidos na primeira sessão do ano são focados no desenvolvimento de Ponta Grossa, e portanto, é preciso ter cuidado na análise e encaminhamento dos projetos. Conforme informações apuradas pela Redação, a Comissão de Legislação, Justiça e Redação, presidida pelo vereador Léo Farmacêutico em 2026, optou por dar o parecer dentro do prazo previsto regimentalmente, até o início de março.
Membro da comissão, o vereador Guilherme Mazer (PT) informou que alguns vereadores já sinalizaram o interesse em indicar emendas para adaptar o projeto de lei, como apontado pelo parlamentar Geraldo Stocco (PV), que avalia a concessão como uma saída que exige discussão com o setor de produção de eventos, pois apesar de subutilizado, o espaço é histórico e precisa de contrapartidas claras para a gestão.

NOVAS DISCUSSÕES
O texto deve receber novos pareceres a partir da retomada das sessões, para, então, retornar à discussão no Plenário de Ponta Grossa. Por enquanto, os vereadores e o Poder Executivo seguem na avaliação da melhor forma para dar continuidade a esta importante proposta que define o futuro de um espaço que fomenta a cultura, turismo e economia da cidade há décadas. Os usuários do espaço, o qual é a própria população ponta-grossense, também são fundamentais para este debate: o que é preciso para tornar o Centro de Eventos em um local com maior acessibilidade, de infraestrutura moderna e ampla oferta de entretenimento? Aprovado ou não, investidores e produtores de eventos do setor público e privado podem utilizar destes critérios para otimizar o espaço independente da gestão.
POSSIBILIDADES E DESAFIOS DO CENTRO DE EVENTOS
A concessão do Centro de Eventos de Ponta Grossa à iniciativa privada foi pautada nesta semana pela Câmara Municipal de Ponta Grossa (CMPG), durante a primeira Sessão Legislativa Extraordinária. O projeto volta ao centro do debate público, mas não é recente. A proposta já havia sido discutida em 2017, quando os custos para manter o espaço giravam em torno de R$ 30 mil mensais. À época, o valor já levantava questionamentos sobre a viabilidade de manter a administração exclusivamente pública.
Em 2023, o local voltou a ser tema de discussão, desta vez com a proposta de transformá-lo em um polo tecnológico. Apesar das justificativas apresentadas pelo então prefeito Marcelo Rangel, a iniciativa não avançou. Agora, novamente em evidência, a possível privatização do prédio — atualmente sob administração do governo municipal — suscita questionamentos sobre as oportunidades e os desafios caso a proposta seja aprovada pelo Legislativo.
Somente em 2025, o Centro de Eventos sediou diversas programações, entre elas a 34ª edição da Münchenfest e o Fé Ponta Grossa. Neste ano, a 43ª Fesuva terminou com público superior a 20 mil pessoas, segundo a organização. Para parte do setor produtivo, a concessão pode representar novas possibilidades de desenvolvimento. É o que avalia Karen Kobilarz, conselheira da área de Turismo do Grupo aRede.
“A proposta de concessão do Centro de Eventos à iniciativa privada pode representar um avanço importante para o setor de Turismo e Cultura, especialmente sob a perspectiva da profissionalização da gestão do espaço. Um dos principais aspectos positivos está justamente na possibilidade de implementação de um modelo de gestão mais técnico, com foco em eficiência operacional, planejamento comercial, captação ativa de eventos e manutenção permanente da estrutura. Equipamentos dessa natureza exigem atualização constante, tanto em termos tecnológicos quanto estruturais, para acompanhar as exigências do mercado de eventos”, afirma.

MODERNIZAÇÃO E COMPETITIVIDADE
Karen defende que a medida pode impulsionar uma nova perspectiva sobre a qualidade e o aspecto físico do local. Segundo ela, há necessidade de modernização e revitalização para que o Centro de Eventos consiga comportar diferentes formatos, como feiras setoriais, congressos científicos, eventos corporativos, espetáculos culturais e encontros nacionais e internacionais. “Hoje, a cidade carece de um equipamento verdadeiramente multifuncional e competitivo nesse segmento”, pontua.
Na avaliação da conselheira, um Centro de Eventos moderno e bem gerido pode induzir o desenvolvimento do entorno, estimulando o fortalecimento de hotéis, restaurantes, locadoras de veículos e demais serviços. “O turismo de eventos possui forte efeito multiplicador na economia local”, destaca.
Ela ressalta, no entanto, que o modelo de concessão deve preservar a função pública do equipamento. “É fundamental que o contrato garanta o atendimento às demandas culturais e institucionais do município. Sob a ótica do desenvolvimento territorial, a profissionalização da gestão pode posicionar a cidade de forma mais competitiva no cenário estadual e nacional.”
Questionada sobre a logística de acesso ao espaço, Karen afirma que a localização exige planejamento específico. Entre as estratégias possíveis, cita melhorias na sinalização turística e viária, operação de transporte dedicado em grandes eventos, parcerias com hotéis e agências receptivas, investimentos em mobilidade urbana e iluminação no entorno, além do uso de tecnologia para organização de rotas e fluxos.
PRESERVAÇÃO DE EVENTOS TRADICIONAIS
Para o produtor cultural Eduardo Godoy, conselho de Cultura do Grupo aRede, diretor da Estratégia Projetos Criativos e conselheiro fiscal do Sindicato dos Empresários e Produtores em Espetáculos de Diversões no Estado do Paraná (SEPED-PR), o modelo adotado será determinante. “Acredito que os critérios da concessão vão definir como os eventos tradicionais serão preservados. É fundamental a participação da sociedade nas audiências públicas que deverão anteceder a definição. Precisamos preservar o que há de positivo e, ao mesmo tempo, abrir espaço para novas ideias”, afirma.
Godoy vê a concessão com perspectiva favorável, citando exemplos de espaços que passaram por processos semelhantes em outras cidades, como Riocentro (RJ), Distrito Anhembi (SP), Centro de Convenções de Salvador, Minascentro (BH) e Centro de Convenções AM Malls (Aracaju). “São espaços revitalizados, versáteis, com agenda robusta e planejamento de longo prazo. Tornaram-se ativos urbanos potencializados pelas concessões e geram resultados econômicos e sociais”, argumenta.
Ele destaca ainda o cenário nacional do setor. “O segmento de eventos criou mais de 186 mil vagas de emprego formal e movimentou R$ 140 bilhões no Brasil em 2025, recorde da série histórica. Municípios preparados para receber grandes eventos saem na frente. Ter um Centro de Eventos estruturado é estratégico.” Apesar da expectativa, Godoy pondera que as discussões ainda estão em fase inicial. “Não há consenso no setor. Sou favorável, desde que o projeto seja amplamente debatido e inclua critérios que garantam a participação de empreendedores locais na agenda e na prestação de serviços.”

VISÃO DOS PRODUTORES DE EVENTOS
A produtora de eventos Nadja Marques também avalia que o Centro de Eventos precisa passar por uma readequação estrutural. Segundo ela, quem atua no setor em Ponta Grossa encontra limitações para investir em eventos de maior porte. “Hoje a gente enfrenta dificuldades, e a estrutura atual deixa a desejar”, afirma.
De acordo com Nadja, os custos para tornar o espaço operacional acabam afastando produtores. “Se você vai realizar um evento no Centro de Eventos, o custo para deixá-lo em condições adequadas de funcionamento é muito alto. Muitas vezes, a escolha por outro local ocorre por uma questão estrutural”, explica. Ela reforça que desafios continuarão existindo, mesmo com uma eventual concessão, mas acredita que o modelo pode abrir caminhos mais equilibrados para o setor. “Havendo a concessão e uma empresa responsável pela exploração do espaço, independentemente da discussão sobre custos após as benfeitorias, ainda assim pode haver uma relação custo-benefício saudável. Todos ganham: os produtores, o público e a cidade, que passa a ter condições de receber eventos de maior porte.”
Nadja cita como exemplo a realização de eventos empresariais com público superior a mil pessoas em municípios vizinhos. “É inadmissível que grandes empresas promovam eventos desse porte em cidades como Carambeí e Castro, e não em Ponta Grossa. Não que essas cidades não sejam merecedoras — elas se estruturaram para isso —, mas Ponta Grossa, pelo tamanho, pelo nível de industrialização e pela demanda que possui, também deveria estar preparada para receber esse tipo de evento”, conclui.
Sob a ótica técnica e operacional, o produtor Iran Taques, da Its Produções, avalia que a concessão pode garantir investimento e modernização, mas alerta para riscos no modelo. “Um espaço daquele tamanho precisa de atualização constante e fluxo financeiro ao longo de todo o ano. Se for para conceder, que seja para transformar o Centro de Eventos em algo maior do que é hoje. Não pode funcionar apenas como palco de shows ou eventos pontuais. Precisa se tornar um complexo de eventos e negócios, com estrutura para feiras, congressos, exposições, formaturas e eventos corporativos acontecendo simultaneamente”, defende.
Para ele, o risco está em uma concessão limitada. “Se for pensada apenas como locação para eventos, já nasce pequena. Shows sozinhos não sustentam uma estrutura daquele porte.” Iran também aponta que mudanças no modelo podem impactar os valores cobrados. “Quando realizada pelo poder público, parte dos custos era subsidiada, permitindo ingressos mais acessíveis. No modelo privado, os custos reais entram no preço.”
Questionado sobre possível aumento nos custos de locação para produtores locais ou entidades culturais, ele afirma que o essencial é romper com a lógica de eventos sazonais. “O Centro de Eventos precisa ter vida durante a semana. Hotel, restaurantes, salas corporativas, estacionamento estruturado, espaços menores para eventos simultâneos. Quando se cria um ecossistema, o custo não fica concentrado apenas nos grandes eventos.”
Sobre o risco de elitização, pondera: “Tudo depende da proposta. Se for para poucos eventos e preços elevados, não faz sentido. Mas, se for um complexo aberto a diferentes públicos e atividades, a cidade ganha.” Ainda em tramitação, o projeto precisa passar por análise, votação e possíveis emendas. O Executivo sustenta que a concessão pode aliviar os cofres públicos. Caso a proposta não avance, Iran defende que ao menos se pense em concessões parciais. “O fundamental é ter projeto e visão de longo prazo. A decisão mais importante não é se será público ou privado, mas o que se espera dessa área nos próximos dez anos.”
LEIA UM RESUMO DA NOTÍCIA
- Proposta de concessão: A Prefeitura de Ponta Grossa enviou à Câmara o PL 007/2026, que autoriza a concessão onerosa do Centro de Eventos à iniciativa privada. O Executivo afirma que não se trata de venda, mas de transferência da gestão para reduzir custos, modernizar a estrutura e ampliar a utilização do espaço.
- Debate político e técnico: Vereadores discutem prazos, investimentos, contrapartidas e preservação do caráter público. Enquanto parte do Legislativo e do setor de Turismo vê potencial de desenvolvimento econômico, entidades como a Acipg defendem mais debate e transparência antes da aprovação.
- Oportunidades e desafios: O Centro de Eventos tem grande estrutura e potencial para movimentar a economia com feiras e grandes shows, mas enfrenta problemas de subutilização e custos elevados. Produtores e especialistas apontam que a concessão pode trazer modernização e competitividade, desde que haja planejamento, participação local e garantia de acesso público.




















