Centenas de famílias de Ponta Grossa vivem drama em áreas de risco | aRede
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Centenas de famílias de Ponta Grossa vivem drama em áreas de risco

Levantamento da Prefeitura e Defesa Civil aponta concentração de áreas vulneráveis em bairros próximos a arroios e fundos de vale

Agentes têm visitado famílias que residem em áreas de atenção em Ponta Grossa
Agentes têm visitado famílias que residem em áreas de atenção em Ponta Grossa -

Lilian Magalhães e Lincoln Vargas

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Calor, sol, frio, chuvas e granizo em Ponta Grossa são causadores de diversos problemas para moradores da cidade. Apesar de afetarem grande parte da população de forma geral, seja por meio de apagões, riscos físicos, ou até mesmo meras inconveniências, algumas áreas específicas são mais suscetíveis a problemas graves do que outros.

Como palco de diversos eventos climáticos distintos, a cidade princesina possui também áreas de risco que apresentam riscos grandes para aqueles que moram nessas regiões. De acordo com um levantamento da Secretaria Municipal da Família e Desenvolvimento Social, são 105 áreas de risco identificadas em Ponta Grossa.

Entre essas, estão inclusas áreas públicas e particulares. Os dados foram cadastrados no Plano Estadual de Habitação de Interesse Social (PEHIS), realizado no ano de 2023. Essas áreas, mapeadas pela Superintendência de Habitação, estão distribuídas por diversos bairros da zona urbana, englobando principalmente ocupações irregulares, moradias em áreas de preservação permanente, e também regiões próximas a arroios, e fundos de vale.

O levantamento é realizado por meio de formulários individuais e também de georreferenciamento de cada ponto, servindo como base técnica para o planejamento de políticas públicas voltadas à habitação, infraestrutura e assistência social.

LOCALIZAÇÃO E RISCOS

Entre os principais riscos reconhecidos nestas áreas estão as inundações, e também os deslizamentos. Ao todo, são 10 áreas de risco em monitoramento constante pela Defesa Civil de Ponta Grossa.

Os bairros que contam com áreas de risco de inundação são os bairros Boa Vista, Santo Antônio, Ronda, Vila Lina, DER, Vila Cipa e Olarias, geralmente localizadas próximas a arroios na cidade. Em casos de deslizamentos, a Vila Margarida, Vila Ana Rita e Vila Vilela aparecem como áreas de risco reconhecidas pela Defesa Civil de Ponta Grossa.

GALERIA DE FOTOS

  • Mapeamento da Defesa Civil mostra áreas de risco.
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    Mapeamento da Defesa Civil mostra áreas de risco.
  

De acordo com o órgão, o acompanhamento destes locais é realizado com base no Plano de Contingência Municipal, atualizado anualmente, que analisa áreas de atenção, e é revisado sempre que ocorre algum evento climático de grande magnitude.

RISCOS E AGRAVANTES

Segundo a Defesa Civil, no ano de 2025, duas ocorrências relacionadas à áreas de risco foram atendidas. A primeira foi em 24 de fevereiro, quando houve uma inundação no arroio da Vila Lina. Naquela ocasião, quatro residências foram atendidas. Outra ocorrência de inundação foi registrada, também na Vila Lina, no dia 26 de março. Neste caso, foram 22 residências atendidas.

Situações como essas ilustram a forma como o problema de áreas de risco se manifestam de forma concreta no cotidiano de moradores que convivem com a incerteza a cada período de chuvas intensas.

A Defesa Civil registrou atendimentos em inundações em Ponta Grossa no último ano.
A Defesa Civil registrou atendimentos em inundações em Ponta Grossa no último ano. |  Foto: Divulgação/Defesa Civil.
  

Não apenas esses riscos existem por conta de aspectos naturais, mas agravantes causados pela própria população podem deixar a situação ainda mais complicada. Segundo a Defesa Civil, o descarte inadequado de resíduos em arroios costumam tornar situações já perigosas, em algo ainda maior.

Além destes riscos, causados por inundações diretamente, Ponta Grossa também teve um evento de calamidade registrado no dia 24 de novembro de 2025, quando um forte temporal de granizo atingiu a cidade.

Naquela ocasião, a Faspg atuou de forma articulada, juntamente da Defesa Civil, para fornecer o suporte técnico para a identificação das famílias afetadas. Além disso, foi realizado um levantamento socioeconômico, em busca de identificar e caracterizar as vulnerabilidades de quem vive nessas localidades. 

ATUAÇÃO INTEGRADA

Segundo a Defesa Civil, há atuação conjunta com órgãos estaduais, não apenas para prevenir os riscos causados por conta desse tipo de ambiente, mas também para garantir a segurança daqueles que são afetados.

O mapeamento, realizado pela Defesa Civil, está incluído no Plano de Contingência. Além disso, quando há a necessidade, em situações extremas, como aconteceu em 2025 durante temporal de granizo, o Governo Estadual também oferece telhas de fibrocimento, colchões e cestas básicas, destinando os itens às famílias afetadas.

ASSISTÊNCIA SOCIAL

Outras áreas de risco reconhecidas e acompanhadas, tanto pela Defesa Civil quanto por órgãos da Prefeitura, como a Secretaria Municipal da Família e Desenvolvimento Social e da Fundação de Assistência Social de Ponta Grossa (Faspg), são ocupações em Áreas de Preservação Permanente (APP).

Ocupações em locais inadequados oferecem um risco para aqueles que vivem no local. Além da precariedade da infraestrutura, irregularidades no solo também ampliam a vulnerabilidade de centenas de famílias.

Dados da Faspg, obtidos por meio do Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), são pelo menos 717 famílias vivendo em áreas de risco na cidade. Entre essas, a comunidade Erickson John Duarte possui em torno de 400 famílias, em levantamento realizado pelo CRAS da 31 de Março.

O levantamento do CRAS Coronel Cláudio apresenta o número de 317 domicílios que vivem em áreas de risco ou de vulnerabilidade já mapeadas. Esse número inclui domicílios em regiões da Coronel Cláudio, com 216 domicílios, além de Olarias nas áreas 1 e 2, entre a Vila Clóris e Vila Badi, e as Vilas Princesa e Vila Clóris.

Importante frisar que esse número não inclui dezenas de áreas listadas nos CRAS Sabará, Santa Luzia, Vila XV, Jardim Carvalho, Cará-Cará e Costa Rica, pois não há quantitativo informado. Desta forma, o número real de domicílios e famílias é ainda maior.

ORIENTAÇÕES

Para a população que mora nessas regiões, os órgãos competentes afirmam que as orientações ocorrem de forma preventiva, por meio do cadastramento de residências, e também por meio de sistemas de alerta. O município recebe avisos do Centro Estadual de Gerenciamento de Riscos e Desastres, e repassa as informações pelos canais oficiais.

Por parte dos moradores, também é possível se cadastrar para receber alertas por SMS, informando o CEP e a localidade para o número 40199.

A equipe da Prefeitura de Ponta Grossa ao lado de parceiros no Ministério Público para o projeto no arroio do Rio Ronda.
A equipe da Prefeitura de Ponta Grossa ao lado de parceiros no Ministério Público para o projeto no arroio do Rio Ronda. |  Foto: Divulgação/Unilivre.
  

Prefeitura de PG estuda soluções para regularizar áreas sem impactar famílias

Imagem ilustrativa da imagem Centenas de famílias de Ponta Grossa vivem drama em áreas de risco
 

Ponta Grossa possui, hoje, 8 áreas de risco de inundação. Entre eles, está o arroio do Rio Ronda, área que, em reportagens anteriores do Grupo aRede, apresentaram episódios de chuva intensa e comprometimento das vias em decorrência de alagamentos. A área, que é hoje Área de Preservação Permanente (APP), possui 70 famílias residentes em moradias em situação de risco, conforme informado pelo secretário de Infraestrutura de Ponta Grossa, Luiz Henrique Honesko.

Conforme informações da Defesa Civil, vilas da região do Rio Ronda, como Cristina, Lina e Hilgemberg convivem com alagamentos que afetam residências e o cotidiano das famílias. Estes impactos refletem a vulnerabilidade física e social de uma região que necessita de soluções estruturais eficientes. Em março de 2025, a Defesa Civil registrou atendimento a ocorrências com 26 residências afetadas por inundação, e manteve uma lista de áreas de atenção de inundação que inclui, além do bairro Ronda, localidades como Boa Vista, Santo Antônio, DER, Cipa e Olarias, que passam por outras grandes e importantes bacias da cidade, como os arroios do Pilão de Pedra e de Olarias.

Obras de asfalto na Rua Porecatu, na Vila Natel, próximo ao Rio Ronda.
Obras de asfalto na Rua Porecatu, na Vila Natel, próximo ao Rio Ronda. |  Foto: Henry Milléo/PMPG.
  

À Redação do Grupo aRede, a Prefeitura Municipal de Ponta Grossa (PMPG) afirma estar realizando um planejamento de políticas públicas intersetorial para solucionar este problema. “Além dos pontos identificados pelo Plano Estadual de Habitação e das áreas de risco monitoradas pela Defesa Civil, o levantamento está sendo realizado por meio da parceria com a Universidade Livre do Meio Ambiente (Unilivre), e vai subsidiar a atuação conjunta de diversos órgãos municipais”, diz a Prefeitura, que afirma que os dados levantados servem como base técnica para o planejamento, a priorização de ações e a definição de estratégias articuladas entre os diferentes setores da administração pública.

Cabe destacar que o monitoramento constante das áreas de risco é atribuição da Defesa Civil, enquanto as intervenções estruturais são realizadas pela Secretaria de Infraestrutura e pelo Iplan (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Ponta Grossa), em articulação com os demais órgãos competentes.

PROJETO VISA ACABAR COM ALAGAMENTOS

Questionado sobre soluções para os principais riscos identificados nos locais de monitoramento constante pela PMPG o órgão respondeu que, em novembro de 2025, foi firmada a parceria com a Universidade Livre do Meio Ambiente (Unilivre) para desenvolver estudos técnico-científicos e elaborar projetos de recuperação socioambiental e reurbanização de fundos de vale no perímetro urbano de Ponta Grossa.

Segundo a Prefeitura, os estudos preveem um conjunto de ações para eliminar riscos para a população. “Neste primeiro momento, as equipes técnicas estão realizando vistorias para analisar pontos críticos, identificar causas de assoreamento em rios e arroios e avaliar os riscos geológicos e geotécnicos de áreas de ocupação irregular”, explica a entidade. 

Em entrevista ao Grupo aRede, as lideranças envolvidas no projeto detalham o mais recente passo neste projeto no arroio do Rio Ronda. Segundo o diretor de Arquitetura e Engenharia da Unilivre, Cris Cavali, a equipe implementou um cadastramento socioeconômico das famílias residentes dentro da mancha de inundação do Rio Ronda, ferramenta essencial para compreender o perfil das pessoas, suas condições de moradia, renda e vulnerabilidade social. “O cadastramento das famílias representa uma ferramenta estratégica para o planejamento e a tomada de decisão do poder público, permitindo a priorização de ações, a definição de estratégias de mitigação aos riscos, e o direcionamento de políticas habitacionais, sociais e urbanísticas”, explica.

O diretor de Arquitetura e Engenharia da Unilivre, Cris Cavali.
O diretor de Arquitetura e Engenharia da Unilivre, Cris Cavali. |  Foto: Arquivo.
  

PAPEL SOCIAL DA INFRAESTRUTURA

Além dos diagnósticos técnicos, o projeto prevê reuniões com moradores e ações de mobilização social para ampliar o diálogo e dar voz à população afetada, conforme explica Cavali. “O projeto incorpora uma etapa fundamental de caráter social: o cadastramento socioeconômico das famílias residentes em áreas inseridas na mancha de inundação do Arroio do Ronda. Esse instrumento técnico-operacional possibilita à administração pública compreender o perfil das famílias afetadas, suas condições de moradia, renda, acesso a serviços públicos, grau de vulnerabilidade social e relação com o território” diz. Dessa forma, as intervenções propostas passam a ser orientadas não apenas pelo risco físico identificado, mas também pelas condições sociais e econômicas da população envolvida.

O estudo sustenta as propostas para reduzir as enchentes e aponta caminhos que combinem intervenções urbanísticas com atenção às necessidades da população. O secretário de Infraestrutura de Ponta Grossa, Luiz Henrique Honesko, explicou que, além de estudar opções de intervenção como desassoreamento e microdrenagem para reduzir a mancha de inundação, a gestão está focada em pensar soluções que não se limitem a retirar as pessoas de áreas de risco, mas sim em realocá-las de forma que não percam os vínculos com o território onde construíram suas vidas. 

Luiz Henrique Honesko, secretário de Infraestrutura de Ponta Grossa.
Luiz Henrique Honesko, secretário de Infraestrutura de Ponta Grossa. |  Foto: Arquivo.
  

“Pensamos o que fazer com a pessoa sem a tirar daquele contexto. São aproximadamente 70 famílias em área de risco na bacia do Rio Ronda. Se construirmos um núcleo longe de onde elas estão, seria logicamente mais rápido, mas não é assim que queremos fazer”, avalia o secretário. “Cada pessoa ali tem uma história, laços, famílias. E esta é uma preocupação da prefeita Elizabeth Schmidt (União Brasil), então, mesmo que o processo demore, nós vamos cuidar dessa população que está em área de risco”.

OBRAS VISAM DIGNIDADE

Em âmbito federal, o deputado Aliel Machado (PV), representante ponta-grossense, tem alinhado a destinação de recursos para a pavimentação e outras intervenções que visam reduzir o impacto das inundações no Rio Ronda. Em 2023, um convênio com a Itaipu Binacional e a PMPG resultou na destinação de R$ 34 milhões para a infraestrutura na bacia do Rio Ronda. Em setembro do último ano, a PMPG afirmou que o projeto completo prevê 14 km de pavimentação asfáltica e implantação de sistemas de microdrenagem para prevenir alagamentos considerados históricos na região.

Aliel Machado (PV), deputado federal.
Aliel Machado (PV), deputado federal. |  Foto: Arquivo.
  

Para o presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Ponta Grossa (Iplan), Rafael Mansani, estes projetos orientam a visão dos gestores municipais para problemas que “por anos, passaram sem a devida observação”. Conforme Mansani, o projeto, que tem como fase final a implantação de interparques com ciclofaixas, renderá grandes frutos para a cidade. Honesko concorda ao demonstrar interesse pela vocação. 

Ao mesmo tempo, a visão municipal amplia o foco. “É preciso pensar o que fazer com aquela área após tirar as casas que estão em situação de risco e dar uma vocação para aquele lugar, porque senão, naturalmente, as pessoas vão ocupar os mesmos lugares, então estamos pensando juntos em soluções”, avalia Honesko. Parte do planejamento contempla a criação de interparques, ciclovias e espaços públicos integrados às bacias hídricas, com a intenção de dar nova vocação às áreas que hoje concentram riscos, qualificando-as como equipamentos urbanos que integrem lazer, mobilidade ativa e convivência com a natureza. 

O juiz federal Antônio César Bochenek.
O juiz federal Antônio César Bochenek. |  Foto: Arquivo.
  

Ainda há outros problemas crônicos de moradias irregulares na cidade que, desde 2020, tramitam no Tribunal Regional Federal (TRF), conforme informações do Juiz Antônio César Bochenek. “O levantamento realizado sobre a realocação e/ou regularização das 350 famílias que residem às margens das ferrovias em Ponta Grossa revela o risco de segurança pela possibilidade de acidentes e afetação às pessoas nas proximidades”, diz Bochenek, que também apontou à Redação a tramitação do processo judicial e o estudo técnico para a definição precisa da faixa de domínio das ferrovias. 

O caminho à frente, portanto, demanda coordenação institucional, recursos, rigor técnico e sensibilidade social, o que foi apontado como alto interesse para as secretarias da Prefeitura e parceiros dos projetos. A integração entre planejamento e aplicação de recursos constitui hoje a estratégia municipal que busca não apenas reduzir os efeitos das chuvas e inundações, mas transformar este trecho vulnerável da cidade em um espaço mais seguro e conectado ao futuro que Ponta Grossa pretende construir.

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