Embrapa quer vetar traçado do novo contorno de Ponta Grossa | aRede
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Embrapa quer vetar traçado do novo contorno de Ponta Grossa

Instituição afirma que atual proposta da concessionária PR Vias para o novo contorno rodoviário impactará negativamente na sua produção para o agronegócio dentro da área da Fazenda Modelo, utilizada também pelo IDR-PR e Exército Brasileiro

Imagem aérea da área da Embrapa Soja em Ponta Grossa
Imagem aérea da área da Embrapa Soja em Ponta Grossa -

Lilian Magalhães e Lincoln Vargas

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A definição do traçado do novo contorno rodoviário de Ponta Grossa tem um impasse central: a área da Fazenda Modelo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Conforme aponta o desenho proposto pela PR Vias, concessionária do Grupo Motiva responsável pelos projetos rodoviários na região, o estudo prevê um traçado que atravessa áreas agrícolas e florestais da fazenda, que possui aproximadamente 4.426,51 hectares em sua totalidade. A estatal de pesquisa afirma que o projeto, na forma apresentada, divide a propriedade utilizada para soluções de pesquisa e sustentabilidade para a agricultura, o que inviabilizaria trabalhos com soja, feijão, trigo e espécies florestais.

Em entrevista à equipe de Jornalismo do Grupo aRede, Alexandre Nepomuceno, chefe-geral da Embrapa Soja reforçou o posicionamento contrário do órgão com relação ao traçado apresentado pela concessionária. “A Embrapa é radicalmente contra, pois o traçado proposto por eles causa a disrupção completa em nossas atividades”, explicou. Ele enfatiza que a fazenda é usada há mais de 40 anos e é estratégica para o melhoramento de culturas e para a formação técnica de jovens, muitas vezes em parceria com o Exército, que também utiliza parte desta área para fazer treinamentos militares com foco em combates com infantaria blindada, além de ações de vigilância e proteção. 

Alexandre Nepomuceno, chefe-geral da Embrapa Soja.
Alexandre Nepomuceno, chefe-geral da Embrapa Soja. |  Foto: Reprodução/Revista Cultivar.
  

O chefe da Embrapa esclarece que, ainda que a instituição seja contrária à atual proposta da PR Vias, a estatal é favorável à sugestão encabeçada pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Ponta Grossa (Cdepg), que indica a Rodovia do Talco como o traçado adequado para as obras. “Somos parceiros neste caso, mas vamos defender os interesses do agronegócio brasileiro para não deixar que a fazenda seja cortada ao meio”, defendeu. Para Nepomuceno, o contorno rodoviário é um projeto importante, mas deve ser realizado no traçado o qual a Embrapa considera correto para a acompanhar a evolução de Ponta Grossa da maneira correta. “Dividir as nossas propriedades é acabar com o trabalho que vem sendo feito há décadas”, disse. 

Registro de evento de integração lavoura-pecuária na Fazenda Modelo.
Registro de evento de integração lavoura-pecuária na Fazenda Modelo. |  Foto: Reprodução/IDR-Paraná.
  

ENTIDADES SE UNEM

A Redação também consultou o posicionamento do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR), órgão o que tem atividades na Fazenda Modelo em Ponta Grossa, próximo à Embrapa. Para o Grupo aRede, o diretor de Gestão Institucional do IDR-PR, Altair Sebastião Dorigo reforçou que a instituição está instalada no local há quase 50 anos para trabalhar com a raça de gado Purunã, que foi desenvolvida com trabalhos realizados no município. Dorigo relatou à reportagem sobre as preocupações que surgiram na instituição ao ser informado sobre a proposta. “Infelizmente, se o traçado passar por aqui, o uso da área será inviabilizado, e a nossa permanência estará comprometida”.

Altair Sebastião Dorigo, diretor de Gestão Institucional do IDR-PR.
Altair Sebastião Dorigo, diretor de Gestão Institucional do IDR-PR. |  Foto: Arquivo/AEN.
  

Dorigo conta que, pelo bom diálogo com a Embrapa, o IDR-PR entrou em contato com a instituição para avaliar o projeto. “Eles, assim como nós, não sabiam de nada. Não houve nenhuma consulta ou pedido formal. Ficamos sabendo desta proposta de traçado por acaso, quando as pessoas da concessionária apareceram aqui para fazer levantamento topográfico”, disse. O diretor também destacou o trajeto da Rodovia do Talco como sugestão ideal para o traçado do novo contorno rodoviário, que passa pela lateral da área. Segundo ele, o instituto segue acompanhando as discussões com coordenadores regionais e membros da equipe. “Somos, sim, a favor do contorno. Mas torcemos para que prevaleça o bom senso”, declarou o diretor.

A Rodovia do Talco, cujos moradores e proprietários de áreas nas proximidades sugerem a pavimentação.
A Rodovia do Talco, cujos moradores e proprietários de áreas nas proximidades sugerem a pavimentação. |  Foto: Divulgação/Luiza Mitsue Otani Anderson.
  

PROPOSTA PARA A RODOVIA DO TALCO

Por se tratar de uma área utilizada também pelo Exército, a reportagem buscou o posicionamento de agentes institucionais, e, conforme o documento técnico da Embrapa, o Comando da 5ª Divisão de Exército reiterou o apoio integral ao traçado do contorno pela Rodovia do Talco. Além disso, representantes locais, como Gustavo Ribas Netto, presidente do Sindicato Rural de Ponta Grossa e diretor da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), além de conselheiro de Agricultura do Grupo aRede, e Luiza Mitsue Otani Anderson, proprietária do Recanto Botuquara, apontam a estrada como viável para o projeto, utilizada há anos por moradores, turistas e para o fluxo de escoamento da produção agrícola. Para os usuários da via, bastaria pavimentar ao trecho. “Ali passam muitos caminhões, carregando riquezas da região, como cascalho, talco e madeira. Também transitam vans escolares para alunos do Distrito de Itaiacoca, além de turistas que passeiam pelo recanto e pelo Buraco do Padre”, explica Luiza.

Luiza Mitsue Otani Anderson, proprietária do Recanto Botuquara.
Luiza Mitsue Otani Anderson, proprietária do Recanto Botuquara. |  Foto: Reprodução/Arquivo pessoal.
  

O posicionamento oficial da Embrapa, emitido em nota enviada à Redação, ainda inclui os projetos delineados por grupos de discussão da Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Ponta Grossa (Acipg) e do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Ponta Grossa (Cdepg), formados por lideranças locais. Para as organizações, além das condições já citadas pela Embrapa e IDR, o traçado proposto pela concessionária corta áreas estratégicas do município e passa muito próximo à zona urbana, o que pode comprometer a expansão ordenada da cidade. Em entrevista ao Grupo aRede em janeiro de 2026, a presidente do Cdepg, Priscilla Jaronski, propôs que o desenho do contorno possa incorporar o novo Distrito Industrial Norte de Ponta Grossa, que abarca a Maltaria, a fábrica DAF Caminhões e a futura Nissin Foods, e afirma que quer ajudar a co-construir o projeto.

Priscilla Jaronski, presidente do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Ponta Grossa (Cdepg).
Priscilla Jaronski, presidente do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Ponta Grossa (Cdepg). |  Foto: Arquivo aRede.
  

A mobilização envolve também representantes políticos, como o secretário estadual de Infraestrutura e Logística do Paraná, Sandro Alex, o presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Ponta Grossa, Rafael Mansani, e a interlocução com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), via o deputado federal Aliel Machado, conforme apontou Priscilla, que considera estas articulações fundamentais para futuras referências nos projetos.

DESAFIOS E NOVAS DISCUSSÕES

Para Ponta Grossa, o projeto do contorno rodoviário tem implicações diretas: um traçado que preserve áreas estratégicas fortalece a cadeia produtiva do agronegócio e da indústria, mas ainda há questões voltadas às demandas técnicas a serem discutidas: desafios ambientais, sociais e urbanos devem ser estudados para que o projeto chegue a um ponto comum e atenda às necessidades logísticas e de desenvolvimento de Ponta Grossa. Com reunião marcada para o fim de fevereiro, as entidades da sociedade civil organizada devem discutir novas propostas com a concessionária, na qual a área de Embrapa seguirá sendo protagonista do diálogo.

DEFINIÇÃO DO TRAÇADO DO NOVO CONTORNO DEVE ACONTECER NO PRIMEIRO SEMESTRE

A concessionária CCR PRVias deve entregar no primeiro semestre de 2026 o projeto do traçado do novo Contorno Leste de Ponta Grossa, obra considerada estratégica para a reorganização do tráfego pesado e para o desenvolvimento logístico dos Campos Gerais. Em meio à análise técnica da ANTT, o traçado mobiliza debates entre Governo do Estado, a concessionária, entidades locais e setores diretamente impactados, enquanto ajustes seguem em discussão antes da definição final.

A obra é considerada estratégica para a reorganização do tráfego pesado e para o desenvolvimento logístico dos Campos Gerais. O traçado proposto prevê pouco mais de 40 quilômetros de extensão, ligando a região do Distrito Industrial ao Trevo Caetano, na BR-373, com cruzamento da PR-151 nas proximidades da Maltaria Campos Gerais. O empreendimento integra o contrato das Rodovias Integradas do Paraná e, após a aprovação técnica, poderá ser executado ao longo de até sete anos.

Nos últimos meses, o tema passou a mobilizar entidades empresariais, conselhos de desenvolvimento e representantes do poder público municipal e estadual. Reuniões realizadas na Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Ponta Grossa (Acipg) e encontros promovidos pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Ponta Grossa (CDEPG) ampliaram o debate sobre os impactos do traçado no crescimento urbano, na logística e no uso futuro do território.

AS PROPOSTAS

Atualmente, o debate envolve mais de uma proposta de traçado para o novo contorno. A principal delas é a apresentada pela concessionária CCR PRVias, desenvolvida com base em estudos geotécnicos e em critérios de engenharia, segurança viária, operação e sustentabilidade. Esse traçado já foi apresentado ao Município, às entidades representativas e está sob análise da ANTT, sendo tratado como a base técnica do projeto.

Proposta do Governo do Estado do Paraná
Proposta do Governo do Estado do Paraná |  Foto: Reprodução/CCR PRVias.
 

Paralelamente, entidades da sociedade civil organizada, por meio do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Ponta Grossa (Cdepg), apresentaram uma proposta alternativa. A sugestão busca afastar o contorno de áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento urbano e econômico de Ponta Grossa, além de reduzir riscos de conflitos com a expansão da cidade nas próximas décadas. O Conselho defende que a decisão final seja pautada em critérios técnicos, ambientais e de interesse público de longo prazo.

Proposta do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Ponta Grossa (Cdepg)
Proposta do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Ponta Grossa (Cdepg) |  Foto: Reprodução/

Além dessas duas frentes, o Governo do Estado do Paraná também contribuiu com estudos técnicos no âmbito do contrato das Rodovias Integradas do Paraná, firmado após o leilão vencido pelo Grupo CCR PRVias. Essas contribuições passaram a integrar o conjunto de análises que embasam a definição do traçado final.

POSICIONAMENTO

O secretário de Estado da Infraestrutura e Logística, Sandro Alex, afirma que o Governo do Paraná tem conduzido o processo com diálogo e cautela. Segundo ele, trata-se de uma obra de grande porte, com impactos inevitáveis. “Nós estamos discutindo, sim, esse assunto, tem uma reunião com a Embrapa para os próximos dias, e a gente vai buscar sempre ouvir a todos. Claro que uma obra nessa dimensão, uma obra bilionária, impacta e também tem a necessidade de respeitar áreas de preservação, de parque, de reserva”, afirma o secretário.

O secretário destaca que reuniões vêm sendo realizadas para ouvir todos os setores e que o objetivo é preservar o máximo possível, garantindo que a cidade seja beneficiada pelo investimento. “A gente tem analisado o melhor traçado. Fiz uma reunião recente na associação, ouvindo a todos. A gente vai discutir para tentar sempre preservar o máximo possível, respeitando a todos, e que a cidade ganhe com esse investimento. Estamos avançando, conversando e dialogando com todos”, complementa.

Sandro Alex é deputado federal (PSD) e tamb
Sandro Alex é deputado federal (PSD) e tamb |  Foto: Kayky de Jesus/aRede.

A concessionária PRVias, por sua vez, reforça que o projeto está em fase de avaliação pelos órgãos competentes e que as contribuições apresentadas pelas entidades estão sendo analisadas. Em nota oficial, a empresa informou, na íntegra:

“A PRVias informa que se reuniu com lideranças políticas, públicas e de entidades da sociedade civil de Ponta Grossa e do Paraná sobre a proposta do contorno rodoviário, que está sob análise da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). A concessionária promoveu encontros e apresentou a proposta de traçado, desenvolvido com base em estudos geotécnicos e atendendo requisitos de engenharia e sustentabilidade. A PRVias ouviu sugestões dos representantes de entidades, que estão em fase de avaliação de viabilidade.”

DEFINIÇÃO DO TRAÇADO

Durante encontro com representantes do assentamento Emiliano Zapata, foi repassado ao grupo que a definição sobre o traçado do novo contorno deve ocorrer ainda no primeiro semestre. A partir desse entendimento, a avaliação apresentada foi de concordância com a proposta da concessionária PRVias, desde que não haja impacto direto sobre as áreas produtivas do assentamento.

Representantes do Assentamento Emiliano Zapata tiveram reunião com a Motiva
Representantes do Assentamento Emiliano Zapata tiveram reunião com a Motiva |  Foto: Roberta Aline/MDS.

Procurada, a PRVias não confirmou oficialmente o prazo mencionado durante a reunião, e se limitou a dizer que o posicionamento oficial da concessionária neste momento é o da nota citada acima.

PONTOS SENSÍVEIS

Apesar dos avanços, o traçado segue sendo analisado com cautela por diferentes instituições. Entre os pontos considerados sensíveis estão áreas utilizadas por órgãos públicos de pesquisa e desenvolvimento, como a Embrapa e o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR), que já manifestaram ressalvas em relação à passagem da rodovia por trechos sob sua gestão. As discussões sobre esses pontos seguem em paralelo e fazem parte do processo de avaliação técnica do projeto.

PRÓXIMOS PASSOS

Com a provável previsão de entrega do Projeto Funcional ainda no primeiro semestre, o novo contorno rodoviário de Ponta Grossa entra em uma fase decisiva. A expectativa é que, a partir dessa etapa, haja maior clareza sobre o traçado definitivo e sobre como a obra poderá equilibrar eficiência logística, sustentabilidade e desenvolvimento urbano ordenado, definindo um dos principais eixos estruturantes para o futuro do município.

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