Ponta Grossa adota diferentes medidas para proteger o patrimônio histórico | aRede
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Ponta Grossa adota diferentes medidas para proteger o patrimônio histórico

Segundo a Prefeitura de Ponta Grossa, através da Secretaria Municipal de Cultura, o município avançou na área, já especialistas apontam melhorias, mas reforçam necessidade de ampliar políticas e investimentos no setor

Mansão Vila Hilda em Ponta Grossa
Mansão Vila Hilda em Ponta Grossa -

João Iansen e Lucas Veloso

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Ponta Grossa carrega, em suas ruas e edificações, marcas de diferentes períodos históricos que ajudam a contar a formação da cidade, dos povos indígenas e tropeiros à chegada da ferrovia, passando pela influência europeia, o ciclo do café e a industrialização. Apesar dessa riqueza, especialistas alertam que a preservação do patrimônio histórico ainda enfrenta desafios estruturais e culturais no município.

Para o professor aposentado da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e integrante da Associação de Preservação do Patrimônio Cultural e Natural (APPAC), Leonel Brizolla, a cidade possui um vasto acervo cultural, mas historicamente negligenciado. Segundo ele, o poder público nunca tratou a preservação como prioridade, o que resultou na perda de parte significativa desse patrimônio ao longo do tempo. “Hoje temos apenas traços dessa história espalhados pela cidade, sem que seja possível compreender plenamente o que existiu ali”, aponta.

Leonel Brizolla - Iintegrante da Associação de Preservação do Patrimônio Cultural e Natural (APPAC)
Leonel Brizolla - Iintegrante da Associação de Preservação do Patrimônio Cultural e Natural (APPAC) |  Foto: Divulgação.

Brizola destaca ainda que espaços importantes, como o antigo complexo ferroviário, perderam sua capacidade de comunicação histórica. Para ele, a falta de políticas contínuas de preservação impediu que Ponta Grossa se consolidasse como um destino turístico cultural, como ocorreu em cidades como Ouro Preto e Paraty.

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ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL RESSALTA AVANÇOS NA ÁREA

Na avaliação do secretário municipal de Cultura de Ponta Grossa, Alberto Portugal, apesar das limitações, o município avançou na área. Ele afirma que Ponta Grossa está entre as cidades com maior número de imóveis tombados no Sul do Brasil e que há um trabalho constante junto ao Conselho Municipal do Patrimônio Cultural (COMPAC). “Temos promovido ações de sensibilização e educação patrimonial, e a ideia de que o patrimônio impede o desenvolvimento vem mudando gradualmente”, explica.

Alberto Portugal - Secretário municipal de Cultura
Alberto Portugal - Secretário municipal de Cultura |  Foto: Divulgação.

O secretário também ressalta que a preservação não depende apenas do poder público. “A memória é coletiva. É preciso que a população participe, compreenda e se envolva no processo”, diz. Segundo ele, muitos imóveis demolidos nos últimos anos não estavam protegidos por tombamento ou inventário, o que evidencia a necessidade de maior participação social na identificação e proteção desses bens.

Entre os projetos em andamento, Portugal cita a revitalização da Estação Paraná, que deve abrigar a futura Escolinha do Patrimônio. A iniciativa, no entanto, enfrenta limitações orçamentárias e entraves burocráticos. “Levamos um ano para conseguir autorização do Estado para executar a obra com recursos próprios”, relata.

Segundo a prefeita Elizabeth Schmidt, há um trabalho técnico consistente da Prefeitura, que fortalece o posicionamento do município na área do turismo e amplia a visibilidade dos espaços “A gestão cria condições concretas para novos investimentos em infraestrutura, qualificação e promoção turística.”

Elizabeth Schmidt - Prefeita de Ponta Grossa
Elizabeth Schmidt - Prefeita de Ponta Grossa |  Foto: Divulgação.

ESPECIALISTA APONTA IMÓVEIS A SEREM RECUPERADOS

A arquiteta e urbanista Gabriela Sgarbossa, especialista em conservação e restauro, avalia que a cidade ainda precisa avançar no entendimento do patrimônio como parte do desenvolvimento urbano. “Existe um discurso de que o patrimônio é um entrave, mas cidades que o valorizam o transformam em ativo econômico, com potencial turístico e cultural”, afirma.

Ela aponta que diversos imóveis poderiam ser recuperados, como o edifício da antiga “Magic” e o barracão das oficinas da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), e defende soluções contemporâneas, como o retrofit, técnica que preserva elementos históricos, como fachadas, ao mesmo tempo em que adapta o interior às necessidades atuais. “É possível conciliar preservação e modernização”, destaca.

Gabriela Sgarbossa - Arquiteta e urbanista especialista em conservação e restauro
Gabriela Sgarbossa - Arquiteta e urbanista especialista em conservação e restauro |  Foto: Divulgação.

Já a professora de Arquitetura e Urbanismo e Artes Visuais, Jeanine Mafra Migliorini, chama a atenção para um problema central: a ausência de uma cultura de preservação consolidada. “A população, em geral, não compreende por que esses bens devem ser conservados, e isso impacta diretamente no cuidado com eles”, explica.

Ela também aponta a especulação imobiliária como um fator de pressão sobre o patrimônio. “Muitas vezes, uma edificação antiga é vista apenas como oportunidade de negócio. Isso gera mais lucro para poucos, mas menos história para a cidade, além de perda de identidade urbana”, afirma.

Apesar disso, Jeanine ressalta que o município ainda possui importantes exemplares preservados, tanto em nível local quanto estadual. Para ela, o desafio está em ampliar o olhar sobre o que deve ser considerado patrimônio e fortalecer a educação patrimonial. “Quando as pessoas se reconhecem nesses espaços, elas passam a defendê-los. A preservação deixa de ser individual e passa a ser coletiva”, diz.

Jeanine Mafra Migliorini - Professora de Arquitetura e Urbanismo e Artes Visuais
Jeanine Mafra Migliorini - Professora de Arquitetura e Urbanismo e Artes Visuais |  Foto: Divulgação.

Entre críticas, avanços e propostas, há um ponto de consenso entre especialistas e poder público: a preservação da memória de Ponta Grossa depende não apenas de recursos ou legislação, mas de uma mudança de mentalidade. Sem isso, a cidade corre o risco de continuar perdendo, aos poucos, parte de sua própria história.

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PRIMEIROS IMÓVEIS TOMBADOS EM PONTA GROSSA (1990)

CASA DA MEMÓRIA

Casa da Memória
Casa da Memória |  Foto: Divulgação.

Foi inaugurada em 1894, servindo de ponto terminal da Estrada de Ferro Paraná, fazendo a ligação Paranaguá-Curitiba e Ponta Grossa. Era o ponto de embarque e desembarque de passageiros e servia para o transporte de cargas. O prédio foi tombado como Patrimônio Cultural do Paraná em 1990.

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MUSEU CAMPOS GERAIS

Museu Campos Gerais
Museu Campos Gerais |  Foto: Divulgação.

Localizado na rua Engenheiro Schamber, o imóvel foi inaugurado em 1928 para ser a sede do Fórum. Em 1983, o prédio recebeu o Museu Campos Gerais da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Foi tombado como Patrimônio Cultural do Paraná em 1990. Atualmente encontra-se desocupado, em fase de reforma para receber novamente as instalações do Museu.

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ESTAÇÃO SAUDADE

Sesc Estação Saudade
Sesc Estação Saudade |  Foto: Divulgação.

Foi construída entre 1899 e 1900, justamente pela Estação Paraná não atender mais ao constante crescimento e movimento de passageiros e cargas. Destacou-se pelo seu porte e foi considerada uma estação de primeira classe. O prédio foi tombado, em 1990, como Patrimônio Cultural do Paraná. Atualmente abriga a unidade do Sesc Estação Saudade.

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MANSÃO VILLA HILDA

Mansão Villa Hilda
Mansão Villa Hilda |  Foto: Divulgação.

A casa foi construída em 1926 pelo alemão Alberto Thielen, industrial e comerciante, que se destacou na história da cidade. Homenageou a esposa nomeando a casa como Mansão Vila Hilda. O casarão de 600 metros quadrados, com influência da arquitetura francesa neoclássica e Art Noveau, possui dois pavimentos, onde um abrigava a família e o outro os serviçais. Foi tombado como Patrimônio Cultural do Paraná em 1990

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PROEX

Proex
Proex |  Foto: Divulgação.

Construído pelo alemão Guilherme Naumann, em 1906, o prédio localiza-se na Praça Marechal Floriano Peixoto, ao lado da Catedral. Foi tombado como Patrimônio Cultural do Paraná em 1990. São dois andares de construção, onde no térreo funcionava a loja de ferragens e no superior a moradia da família. O imóvel foi vendido em 1933 e abrigou diferentes atividades como os Correios, farmácia, faculdade e creche. Hoje o prédio pertence à Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), onde está a sede da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Culturais (Proex)

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COLÉGIO ESTADUAL REGENTE FEIJÓ

Colégio Estadual Regente Feijó
Colégio Estadual Regente Feijó |  Foto: Divulgação.

De estilo eclético, o imóvel foi inaugurado em 1924 para receber a Escola Normal de Ponta Grossa. Em 1939 se tornou sede do Ginásio Regente Feijó. Pelo colégio estadual passaram muitos personagens da história ponta-grossense. Foi tombado como Patrimônio Cultural do Paraná em 1990, ano em o prédio passou por completa revitalização, preservando suas características originais. Em 2002, o estabelecimento foi reinaugurado e segue ativo até os dias de hoje. O tombamento se deu por sua relevância arquitetônica, quanto pelo papel desempenhado na educação local.

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TOMBAMENTOS GARANTEM CONSERVAÇÃO E REESTRUTURAÇÃO DE IMÓVEIS

O tombamento de imóveis é um dos principais elementos para a preservação da cultura de um local. Em Ponta Grossa, atualmente, são 70 imóveis tombados. Os dados foram divulgados pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural (Compac) e pelo Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná (CEPHA).

O tombamento serve para auxiliar na conservação e reestruturação das edificações, para que elas não percam detalhes da sua estrutura original e não sejam demolidas.

A nível municipal, o Compac é o órgão responsável por discutir e decidir quais serão as edificações preservadas no município. Uma das etapas para o cuidado com os imóveis acontece através do processo de tombamento.

Entre os principais pontos em Ponta Grossa, estão a Estação Saudade, construída entre 1899 e 1900 e tombada como Patrimônio Cultural do Paraná em 1990, se tornando uma das primeiras no município a terem o título. Nesta semana, o Sesc começou a obra de instalação dos trilhos que receberão o trem. Desta forma, os populares que visitarem o espaço pelos próximos dias devem ver uma grande movimentação que transformará a estrutura em frente à plataforma da Estação Saudade. Com a instalação, serão 72 metros de trilhos para acomodar a locomotiva 250 e seu tender.

Conforme explica a prefeita Elizabet Schmidt, a preservação desses imóveis garante a manutenção da cultura da cidade, assim como o registro da história de mais de 200 anos.

Neste sentido, o município aparece com dois cenários distintos, entre locais, como a Estação Saudade, que passam por constatantes reformas e permanecem como símbolos de conservação em Ponta Grossa, e outros pontos que, apesar de serem reconhecidos historicamente, acabam sendo deixados de lado, em questão de melhorias e utilização.

Entre os bons exemplos, também vale ressaltar a Casa do Divino, uma propriedade particular leiga de culto ao Divino Espírito Santo, existente na área central.

Casa do Divino em Ponta Grossa
Casa do Divino em Ponta Grossa |  Foto: Divulgação.

O local deixou de ser apenas um local de culto e passou a ser reconhecida oficialmente como um patrimônio cultural de Ponta Grossa, tendo sido tombada em 2004. De acordo com o parecer dos conselheiros do Compac, a Casa do Divino possui valor arquitetônico, histórico e referencial como lugar de memória, e como patrimônio cultural intangível.

Já na questão de exemplos considerados abandonados, podemos citar o Hospital 26 de Outubro que, apesar de ter recebido uma nova pintura recentemente, poucas ações de manutenção foram percebidas ao longo dos anos.

O prédio foi tombado pela Coordenadoria Estadual do Patrimônio Cultural, em 2004, refletindo sua valorização para a história da cidade e também para o turismo, e como uma contribuição para a construção da identidade cultural. Porém, atualmente está em desuso.

Hospital 26 de Outubro em Ponta Grossa
Hospital 26 de Outubro em Ponta Grossa |  Foto: Divulgação.

Nesse sentido, como abordado no início do material, Ponta Grossa avançou na conservação de alguns patrimônios históricos nos últimos anos, entretanto, para uma cidade com tamanha história, ainda há pontos a melhorar, buscando manter viva a história não apenas dos locais citados, mas também daqueles que participaram da construção do município.

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