Mulher trans ingressa em universidade pública após 25 anos longe da escola
História de Sabriiny Fogaça Lopes evidencia superação em meio à baixa presença de pessoas trans no ensino superior

Aos 41 anos, Sabriiny Fogaça Lopes conquistou uma vaga em cursos de licenciatura na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 25 anos após abandonar a escola por conta de episódios de violência e preconceito. A trajetória da estudante, conforme informações da CNN Brasil, é marcada pela interrupção dos estudos ainda na adolescência, quando foi expulsa de casa e enfrentou situações de transfobia.
A aprovação representa não apenas uma conquista pessoal, mas também um marco familiar, já que Sabriiny se tornou a primeira integrante da família a ingressar em uma universidade pública. A história ganha destaque no Dia Internacional da Visibilidade Trans, celebrado nesta terça-feira (31), data voltada à conscientização sobre direitos e combate à violência contra pessoas trans.
Apesar de casos como o dela, o cenário no Brasil ainda é de exclusão. Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais indicam que menos de 0,3% da população trans está no ensino superior, reflexo de barreiras históricas e sociais que dificultam o acesso e a permanência desse grupo nas instituições de ensino.
Sabriiny relata que deixou a escola ainda jovem sem compreender totalmente o que vivia, mas que hoje reconhece ter sido vítima de transfobia e bullying. A mudança em sua trajetória ocorreu após ser acolhida por uma nova família, que a incentivou a retomar os estudos e viabilizou a retificação de seu nome.
Em 2023, ela voltou à antiga escola para buscar documentos, momento que relembrou dificuldades do passado, mas também impulsionou sua retomada acadêmica. Com apoio de professores e participação em projetos educacionais, conseguiu prestar vestibular e foi aprovada em licenciatura em Educação do Campo. Posteriormente, pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), garantiu vaga em licenciatura em Educação Especial, curso que desejava cursar.
A estudante afirma que pretende usar a formação para ajudar outras pessoas a não enfrentarem as mesmas dificuldades que viveu. Especialistas e entidades defendem que políticas afirmativas são essenciais para ampliar o acesso dessa população às universidades. A ANTRA aponta a necessidade de cotas específicas e políticas de permanência, como bolsas e apoio psicológico, para reduzir a evasão.
Atualmente, ao menos 38 universidades brasileiras já adotam cotas para pessoas trans. A Universidade Federal do ABC foi pioneira ao implementar a política em 2017. Em 2024, a Universidade Federal de São Paulo passou a reservar 2% das vagas, enquanto a Universidade Estadual de Campinas também aprovou medida semelhante.
Por outro lado, a Universidade de São Paulo, uma das maiores do país, ainda não possui cotas para essa população. Em artigo publicado no Jornal da USP, a professora Gabrielle Weber apontou que pessoas trans representavam apenas 0,15% dos estudantes de graduação em 2022, além de enfrentarem situações recorrentes de desrespeito e violência no ambiente acadêmico.
Levantamento do grupo Corpas Trans, citado pela docente, indica que 68,5% das pessoas trans entrevistadas relataram ter sofrido transfobia, enquanto 60,2% afirmaram ter presenciado esse tipo de violência. Os dados também apontam alta taxa de ideação suicida entre os participantes.
RESUMO
- Mulher trans ingressa na UFRRJ após 25 anos fora da escola, superando histórico de preconceito
- Menos de 0,3% da população trans está no ensino superior no Brasil
- Universidades avançam com cotas, mas ainda há desafios de inclusão e permanência




















