Prefeitura de PG estuda soluções para regularizar áreas de risco sem impactar famílias
Inundações expõem vulnerabilidades, mas ações técnicas e sociais começam a desenhar um novo rumo para a bacia hidrográfica
Publicado: 25/01/2026, 19:30

Ponta Grossa possui, hoje, 8 áreas de risco de inundação. Entre eles, está o arroio do Rio Ronda, área que, em reportagens anteriores do Grupo aRede, apresentaram episódios de chuva intensa e comprometimento das vias em decorrência de alagamentos. A área, que é hoje Área de Preservação Permanente (APP), possui 70 famílias residentes em moradias em situação de risco, conforme informado pelo secretário de Infraestrutura de Ponta Grossa, Luiz Henrique Honesko.
Conforme informações da Defesa Civil, vilas da região do Rio Ronda, como Cristina, Lina e Hilgemberg convivem com alagamentos que afetam residências e o cotidiano das famílias. Estes impactos refletem a vulnerabilidade física e social de uma região que necessita de soluções estruturais eficientes. Em março de 2025, a Defesa Civil registrou atendimento a ocorrências com 26 residências afetadas por inundação, e manteve uma lista de áreas de atenção de inundação que inclui, além do bairro Ronda, localidades como Boa Vista, Santo Antônio, DER, Cipa e Olarias, que passam por outras grandes e importantes bacias da cidade, como os arroios do Pilão de Pedra e de Olarias.

À Redação do Grupo aRede, a Prefeitura Municipal de Ponta Grossa (PMPG) afirma estar realizando um planejamento de políticas públicas intersetorial para solucionar este problema. “Além dos pontos identificados pelo Plano Estadual de Habitação e das áreas de risco monitoradas pela Defesa Civil, o levantamento está sendo realizado por meio da parceria com a Universidade Livre do Meio Ambiente (Unilivre), e vai subsidiar a atuação conjunta de diversos órgãos municipais”, diz a Prefeitura, que afirma que os dados levantados servem como base técnica para o planejamento, a priorização de ações e a definição de estratégias articuladas entre os diferentes setores da administração pública.
Cabe destacar que o monitoramento constante das áreas de risco é atribuição da Defesa Civil, enquanto as intervenções estruturais são realizadas pela Secretaria de Infraestrutura e pelo Iplan (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Ponta Grossa), em articulação com os demais órgãos competentes.
PROJETO QUER ACABAR COM ALAGAMENTOS
Questionado sobre soluções para os principais riscos identificados nos locais de monitoramento constante pela PMPG o órgão respondeu que, em novembro de 2025, foi firmada a parceria com a Universidade Livre do Meio Ambiente (Unilivre) para desenvolver estudos técnico-científicos e elaborar projetos de recuperação socioambiental e reurbanização de fundos de vale no perímetro urbano de Ponta Grossa.
Segundo a Prefeitura, os estudos preveem um conjunto de ações para eliminar riscos para a população. “Neste primeiro momento, as equipes técnicas estão realizando vistorias para analisar pontos críticos, identificar causas de assoreamento em rios e arroios e avaliar os riscos geológicos e geotécnicos de áreas de ocupação irregular”, explica a entidade.
Em entrevista ao Grupo aRede, as lideranças envolvidas no projeto detalham o mais recente passo neste projeto no arroio do Rio Ronda. Segundo o diretor de Arquitetura e Engenharia da Unilivre, Cris Cavali, a equipe implementou um cadastramento socioeconômico das famílias residentes dentro da mancha de inundação do Rio Ronda, ferramenta essencial para compreender o perfil das pessoas, suas condições de moradia, renda e vulnerabilidade social. “O cadastramento das famílias representa uma ferramenta estratégica para o planejamento e a tomada de decisão do poder público, permitindo a priorização de ações, a definição de estratégias de mitigação aos riscos, e o direcionamento de políticas habitacionais, sociais e urbanísticas”, explica.

PAPEL SOCIAL DA INFRAESTRUTURA
Além dos diagnósticos técnicos, o projeto prevê reuniões com moradores e ações de mobilização social para ampliar o diálogo e dar voz à população afetada, conforme explica Cavali. “O projeto incorpora uma etapa fundamental de caráter social: o cadastramento socioeconômico das famílias residentes em áreas inseridas na mancha de inundação do Arroio do Ronda. Esse instrumento técnico-operacional possibilita à administração pública compreender o perfil das famílias afetadas, suas condições de moradia, renda, acesso a serviços públicos, grau de vulnerabilidade social e relação com o território” diz. Dessa forma, as intervenções propostas passam a ser orientadas não apenas pelo risco físico identificado, mas também pelas condições sociais e econômicas da população envolvida.
O estudo sustenta as propostas para reduzir as enchentes e aponta caminhos que combinem intervenções urbanísticas com atenção às necessidades da população. O secretário de Infraestrutura de Ponta Grossa, Luiz Henrique Honesko, explicou que, além de estudar opções de intervenção como desassoreamento e microdrenagem para reduzir a mancha de inundação, a gestão está focada em pensar soluções que não se limitem a retirar as pessoas de áreas de risco, mas sim em realocá-las de forma que não percam os vínculos com o território onde construíram suas vidas.

“Pensamos o que fazer com a pessoa sem a tirar daquele contexto. São aproximadamente 70 famílias em área de risco na bacia do Rio Ronda. Se construirmos um núcleo longe de onde elas estão, seria logicamente mais rápido, mas não é assim que queremos fazer”, avalia o secretário. “Cada pessoa ali tem uma história, laços, famílias. E esta é uma preocupação da prefeita Elizabeth Schmidt (União Brasil), então, mesmo que o processo demore, nós vamos cuidar dessa população que está em área de risco”.
OBRAS VISAM DIGNIDADE
Em âmbito federal, o deputado Aliel Machado (PV), representante ponta-grossense, tem alinhado a destinação de recursos para a pavimentação e outras intervenções que visam reduzir o impacto das inundações no Rio Ronda. Em 2023, um convênio com a Itaipu Binacional e a PMPG resultou na destinação de R$ 34 milhões para a infraestrutura na bacia do Rio Ronda. Em setembro do último ano, a PMPG afirmou que o projeto completo prevê 14 km de pavimentação asfáltica e implantação de sistemas de microdrenagem para prevenir alagamentos considerados históricos na região.

Para o presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Ponta Grossa (Iplan), Rafael Mansani, estes projetos orientam a visão dos gestores municipais para problemas que “por anos, passaram sem a devida observação”. Conforme Mansani, o projeto, que tem como fase final a implantação de interparques com ciclofaixas, renderá grandes frutos para a cidade. Honesko concorda ao demonstrar interesse pela vocação.
Ao mesmo tempo, a visão municipal amplia o foco. “É preciso pensar o que fazer com aquela área após tirar as casas que estão em situação de risco e dar uma vocação para aquele lugar, porque senão, naturalmente, as pessoas vão ocupar os mesmos lugares, então estamos pensando juntos em soluções”, avalia Honesko. Parte do planejamento contempla a criação de interparques, ciclovias e espaços públicos integrados às bacias hídricas, com a intenção de dar nova vocação às áreas que hoje concentram riscos, qualificando-as como equipamentos urbanos que integrem lazer, mobilidade ativa e convivência com a natureza.

Ainda há outros problemas crônicos de moradias irregulares na cidade que, desde 2020, tramitam no Tribunal Regional Federal (TRF), conforme informações do Juiz Antônio César Bochenek. “O levantamento realizado sobre a realocação e/ou regularização das 350 famílias que residem às margens das ferrovias em Ponta Grossa revela o risco de segurança pela possibilidade de acidentes e afetação às pessoas nas proximidades”, diz Bochenek, que também apontou à Redação a tramitação do processo judicial e o estudo técnico para a definição precisa da faixa de domínio das ferrovias.
O caminho à frente, portanto, demanda coordenação institucional, recursos, rigor técnico e sensibilidade social, o que foi apontado como alto interesse para as secretarias da Prefeitura e parceiros dos projetos. A integração entre planejamento e aplicação de recursos constitui hoje a estratégia municipal que busca não apenas reduzir os efeitos das chuvas e inundações, mas transformar este trecho vulnerável da cidade em um espaço mais seguro e conectado ao futuro que Ponta Grossa pretende construir.




















